O CRO–RJ mantém uma Comissão de Mulheres na Odontologia que busca refletir sobre o papel da mulher na Odontologia e na sociedade. Nada melhor do que iniciarmos nosso trabalho com uma reflexão sobre a História, que sempre nos surpreende e nos faz refletir sobre o presente e sobre o futuro!
O ano de 1932 foi um marco na história da mulher brasileira. No código eleitoral Provisório (Decreto 21076), de 24 de fevereiro de 1932, o voto feminino no Brasil foi assegurado, após intensa campanha nacional pelo direito das mulheres ao voto.
As mulheres conquistavam, depois de muitos anos de reivindicações e discussões, o direito de votar e serem eleitas para cargos nos Poderes Executivo e Legislativo. A obrigatoriedade do voto era um dever masculino, e somente em 1946, a obrigatoriedade do voto foi estendida às mulheres.
Entretanto, a História nos contempla com uma maravilhosa surpresa! A primeira vez que uma mulher votou no Brasil foi na realidade em 1880. E para nossa admiração, a pioneira foi uma Cirurgiã-Dentista, Isabel de Mattos Dillon, que aproveitou a possibilidade promovida pela Lei Saraiva na legislação brasileira. Esta lei, de 1880, dizia que todo brasileiro possuidor de um título científico poderia votar. Por esta razão, Isabel Dillon usou esta brecha para exercer seu direito solicitando sua inclusão na lista de eleitores no Rio Grande do Sul.
Foi inspirador ler na nossa História que uma mulher lutou e conseguiu seu direito ao voto porque tinha o seu diferencial na Educação através de seu título científico. E que esta mulher era uma Cirurgiã-Dentista!!!
Outras mulheres, esporadicamente, ao longo de décadas conseguiram votar utilizando “brechas” na legislação até a verdadeira regulação do voto feminino somente em 1932.
O voto feminino no Brasil é uma conquista recente que nos faz refletir sobre a desigualdade de gênero ainda presente em nossa sociedade, afinal alcançamos este direito há apenas 87 anos.
Comparativamente, a Nova Zelândia foi o primeiro país do mundo a conceder o direito de voto às mulheres, em 1893. As finlandesas alcançaram esse direito em 1906, as mulheres da África do Sul somente em 1933, e na Arábia Saudita em 2011. Enfim, a História das mulheres e suas conquistas mostra que as dificuldades precisam ser vencidas e que muito ainda está por vir.
O poder sobre as decisões públicas, que deveria ser amplo e irrestrito, representativo e proporcional a toda a população, ainda é marcado por gênero, raça e classe, o que abala a representatividade das instituições políticas e resulta em pouca equidade. E mesmo vivendo em 2019, tantos anos depois, constatamos que a atuação das mulheres na esfera pública ainda é muito incipiente.
Considerando a Odontologia e suas características percebemos que a nossa História também apresenta disparates…Hoje, temos 193.909 dentistas mulheres no Brasil inscritas no Conselho Federal de Odontologia, perfazendo um percentual de 60,95% da profissão. Há algumas décadas o número de Cirurgiãs-Dentistas ultrapassa o número de homens; entretanto, essa proporcionalidade não se verifica nas esferas públicas de atuação.
Mesmo com um contingente tão considerável de mulheres dominando a profissão, por incrível que possa parecer ainda percebemos o quanto a mulher permanece com espaços a conquistar. Uma das Universidades mais antigas do Brasil, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, somente elegeu sua primeira Diretora (mulher) em 2014 quando o curso de Odontologia fazia 82 anos de existência, já separado da Medicina.
Este artigo foi dedicado às Cirurgiãs-Dentistas do nosso país, para que todas consigam garantir serem ouvidas, lembrando que a Educação é sempre o caminho mais certeiro para o alcance desse objetivo.

Dra. Maria Cynésia Medeiros de Barros
• Conselheira do CRO-RJ
• Graduação em Odontologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro-UERJ
• Mestrado em Saúde Pública pela University of London e Doutorado em Odontologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ
• Professora Associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro
• Primeira Mulher Diretora da Faculdade de Odontologia da UFRJ – (gestão 2014-2018)

Referências

https://www.todamateria.com.br/voto-feminino-no-brasil/

A conquista do voto feminino, em 1932

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sufr%C3%A1gio_feminino#Hist%C3%B3rico

Voto feminino no Brasil