Editorial

Novembro / 2008
Odontologia no Serviço Público - Heroísmos ou Desrespeito?

A Odontologia necessita ter os seus valores resgatados no serviço público. Esta é uma responsabilidade dos profissionais que desejem modificar as condições atuais, mas depende do efetivo engajamento de todos e de cada um.

Muitos são os colegas que têm atendido ao nosso apelo e se manifestado sobre as questões que afetam a nossa classe.

Cumprindo o papel a que nos propusemos, a todos temos respondido, de preferência por telefone, meio de contato que preferimos, só recorrendo ao e-mail quando o contato telefônico, após diversas tentativas, se mostra impossível.

Recentemente, um e-mail recebido de colega questiona com indignação os baixos valores que são oferecidos nos concursos promovidos por diversos municípios.

Outra colega diz sentir-se, "humilhada" diante de R$ 495,00, por 20 horas de trabalho semanal, que a Prefeitura de Arraial do Cabo oferece. Destaca que o valor, correspondente a pouco mais do que o salário mínimo, está sendo oferecido a um profissional de terceiro grau, que exerce uma atividade de risco, com grande desgaste físico e após anos de elevado investimento na formação.

Após pesquisar o assunto, verificamos que a Prefeitura do Rio de Janeiro em edital de janeiro, acena com vencimento de R$ 669,48, pela carga semanal de 24 horas, tanto para clínicos quanto para especialistas.

Por sua vez, a Prefeitura de Quatis oferece R$ 859,38 para clínicos, por 20 horas, e Arraial do Cabo, R$ 1.592,30 para clínicos e especialistas em Cirurgia, Odontopediatria, Ortodontia e Prótese, pela mesma carga horária semanal.

Porém, além do desestímulo financeiro para ingressar no serviço público ou nele permanecer, são conhecidas as precárias condições em que os CDs desempenham as suas funções.

Outro colega com mais de 25 anos de atividade hospitalar nos informa que a conjugação desses dois fatores vem, de forma gradativa, influenciando negativamente na relação profissional. Alguns colegas se limitam a cumprir as funções básicas, chegando a se esquivar de emitir pareceres com relação a casos que não estejam diretamente ligados.

Como se não bastasse, há rivalidade entre os cooperativados e os estatutários, pois os primeiros possuem salário mais elevado do que os segundos, e estes se sentem como se os outros ocupassem o lugar que lhes cabe.

Segundo esse experimentado colega, a corrosão nas relações entre os membros da equipe faz com que o cirurgião-dentista tenha que recorrer ao prestígio pessoal para que os profissionais auxiliares, também desestimulados, façam a medicação indicada nos pacientes atendidos, o que assume ar de favor, como se não fosse simples cumprimento das obrigações funcionais.

Continuando, o colega observou que a Odontologia vem sofrendo crescente deterioração no meio hospitalar público, com relação a instrumental, material e pessoal auxiliar.

Teceu ainda severas críticas ao mecanismo criado para a obtenção do instrumental esterilizado, que obriga o CD a se deslocar por grande distância até o setor competente, para que lhe seja entregue o instrumental que necessita, a cada paciente atendido.

Disse que, em todos esses anos, nunca foi fornecido filme de PVC para proteger o equipamento.

Com relação à caneta de alta-rotação, nem todas as equipes a possuem e a sua esterilização é motivo de suprema dificuldade.

O dilema é constante, pois se aparecer alguém com necessidade de tratamento endodôntico, não há o instrumental indispensável para realizar o procedimento inicial e depois encaminhar o paciente para a continuação do tratamento.

Segundo o colega, em diversos casos, não fez a exodontia, por prognosticar condições de tratamento para o elemento dentário. Após esclarecer o paciente, encaminhou-o para um posto de saúde. Depois, contudo, o posto reclamou para a secretaria de saúde, em virtude do profissional do hospital não ter feito o trabalho dele - extrair o dente.

Tal estado de coisas, para o colega, representa um autêntico desrespeito com a sociedade, pois o discurso oficial é um, mas a prática adotada, outra, ou seja, vigora a mutilação.

Em meio a tantas adversidades, até os colegas mais jovens se deixam abater pela falta de estímulo para a evolução profissional.

Como se vê neste pequeno retrato, a Odontologia necessita ter os seus valores resgatados no serviço público. Esta é uma responsabilidade dos profissionais que desejem modificar as condições atuais, mas depende do efetivo engajamento de todos e de cada um.

Resta meditar sobre os colegas que permanecem em atividade em tão desrespeitosas condições de trabalho.

Serão eles heróis, sobreviventes, perseverantes ou tudo isso a um só tempo?

Afonso Fernandes Rocha
Presidente


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