Editorial

Março / 2009
Marketing Ético

Sabemos que a profissão vem passando por profundas modificações e que a prestação de serviços, entre os quais o odontológico, acompanha as flutuações da economia, porém não se pode admitir que o nosso trabalho seja tratado dessa forma.

Quando pesquisamos junto aos colegas, para saber quais assuntos interessam à categoria a fim de que o CRO-RJ possa oferecer palestras, o marketing sempre é lembrado.

Profissionais de faixas etárias distintas e de diferente tempo de exercício da Odontologia manifestam interesse sobre o tema.

O assunto e a sua importância não são novos e, há alguns anos, todas as faculdades o ministravam, com os nomes de orientação profissional ou administração odontológica, entre outros.

A disciplina era lecionada no fim do curso por um professor que tinha experiência em consultório e no trato com os pacientes. Os assuntos abordados eram aparentemente simples, mas de aplicação certa pelos futuros profissionais, como cuidados na instalação do consultório, tipos de emprego disponíveis para o cirurgião-dentista, estipulação de honorários e preenchimento do livro-caixa. Os cuidados no atendimento do paciente eram abordados com destaque e eram ensinados desde o cuidado com a aparência pessoal e do consultório, até a forma correta de atender ao telefone.

Nos dias de hoje, poucos são os cursos de graduação que ministram esse tipo de conteúdo e o marketing, que se propõe a preencher esse vazio, muitas vezes é abordado por pessoas estranhas à nossa profissão.

Em algumas palestras e cursos destinados a cirurgiões-dentistas e ministrados por pessoas que se apresentam como ícones na área, diante de platéias lotadas, são apresentadas técnicas utilizadas na área de vendas, que por vezes violam os valores éticos fundamentais.

Com o pretexto de fazer um marketing agressivo, há quem recomende que se ofereça para a secretária, como "incentivo", um valor fixo por cada cliente novo que fechar o orçamento acima de um determinado valor, ou até mesmo um percentual para cada coroa de porcelana vendida.

A auxiliar de saúde bucal (antiga ACD), por sua vez, quando não estiver atuando junto ao profissional, deverá ficar ao telefone, para captar novos clientes.
Tais práticas transformam a auxiliar em operadora de telemarketing, já que oferece indistintamente os serviços do profissional como se fosse um telefone celular ou outra mercadoria, o que, no nosso entender deve causar impressão pouco favorável aos potenciais pacientes.

Por outro lado, o uso do verbo vender transmite a idéia que o profissional possui "estoque de dentes de porcelana" que podem utilizados em todo e qualquer paciente. Nessa visão, a Odontologia passa a ser simples e comum atividade comercial, desenvolvida à medida que os fregueses forem aparecendo, isto é, qualquer dente serve para qualquer um.

Essa visão deturpada, simplista e até mesmo mercantilista da relação profissional-paciente, por certo traz danos consideráveis aos alunos e jovens colegas.

Sabemos que a profissão vem passando por profundas modificações e que a prestação de serviços, entre os quais o odontológico, acompanha as flutuações da economia, porém não se pode admitir que o nosso trabalho seja tratado dessa forma.

Não nos cabe, nem pretendemos nos intrometer nas questões de ensino, mas acreditamos que o conteúdo destinado a orientar os alunos e os cirurgiões-dentistas na vida profissional deva ter corrigidas tais deturpações, fazendo a profilaxia da violação da Ética Odontológica.

Afonso Fernandes Rocha
Presidente


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