
Uso de drogas, início precoce da vida sexual e baixa aderência ao uso de preservativos são alguns dos fatores de vulnerabilidade para mulheres à infecção pelo HIV, segundo a doutoranda Adriana de Araújo Pinho, do curso de Epidemiologia em Saúde Pública da ENSP, que publicou artigo, no segundo suplemento da revista científica Cadernos de Saúde Pública, sobre Avaliação em Saúde Sexual e Reprodutiva. No texto, ela destaca também que a chance de transmissão homem-mulher é maior que a transmissão mulher-homem, sugerindo uma possível associação das relações de gênero da sociedade com a maior vulnerabilidade das mulheres ao HIV.
O artigo "Contextos de vulnerabilidade para o HIV entre mulheres brasileiras", escrito em parceria com cinco autores de outras instituições, traçou um perfil das mulheres vivendo com HIV/Aids e buscou identificar fatores que as particularizam. De acordo com o texto, 'só será possível obter qualquer avanço nas discussões e propostas de prevenção se as expectativas de mulheres e homens, no que diz respeito à sexualidade e reprodução, forem consideradas, e se houver coragem por parte dos gestores e formuladores de políticas públicas em flexibilizar a discussão sobre o enfrentamento da epidemia do HIV entre as mulheres'.
O estudo foi realizado em 13 municípios das cinco regiões do país, com quase quatro mil mulheres usuárias de serviço público de atenção à saúde da mulher, dividas em 1.777 mulheres com diagnóstico positivo para HIV e 2.045 mulheres sem diagnóstico conhecido de soropositividade para o HIV. Na pesquisa, foram utilizados questionários contendo questões sociodemográficas, cor da pele, escolaridade, fonte de renda, estado conjugal; comportamento e saúde sexual; histórico de doença sexualmente transmissível (DST); comportamento contraceptivo e reprodutivo, intenção reprodutiva; situações de risco para DST/AIDS - uso de preservativo em relações sexuais, uso de drogas pela entrevistada e pelo parceiro sexual, prática de sexo em troca de dinheiro e/ou drogas; acesso aos serviços de saúde; e outros. Além dessas questões, entre as mulheres com HIV, também foi investigada a história da infecção e do diagnóstico de HIV.
O texto indicou que os modelos de prevenção derivados do início da epidemia eram voltados para um perfil predominantemente de homossexuais masculinos. Mas, com o passar das décadas, houve mudanças. 'Quando se analisa a evolução da epidemia no sexo feminino no país, observam-se três fases distintas em termos de risco para a infecção pelo HIV: a primeira, até 1986, quando a transmissão pela via sexual era a mais importante, sendo, naquele momento, as mais frequentes as parcerias com homens que fazem sexo com homens e homens transfundidos. A segunda fase, do fim da década de 80 ao início da década de 90, em que o uso de drogas injetáveis aparece como uma importante forma de infecção pelo HIV, particularmente na região Sudeste do país; e a terceira fase, do início dos anos 90 até o presente momento, apresenta nítido predomínio da prática heterossexual como forma de transmissão do HIV para as mulheres'.
De acordo com o texto, entre as mulheres vivendo com HIV/AIDS, as principais formas autopercebidas de infecção foram 'o parceiro ter múltiplas parceiras sexuais ou ser bissexual (38%), elas terem tido relações sexuais desprotegidas (23%) e o parceiro ser usuário de drogas (17,3%). Das 1.098 mulheres vivendo com HIV/AIDS que responderam ter parceiro fixo no momento da entrevista, 82,4% conheciam a sorologia de seus parceiros e 46,3% afirmaram que o seu parceiro também era portador do HIV. Entre as mulheres vivendo com HIV/AIDS com parceiro fixo na época da infecção, 70% relataram que foi este parceiro que as infectou, e 22% não sabiam se haviam sido infectadas pelo parceiro ou não'. Dados sobre as características de comportamento sexual indicam que mulheres vivendo com HIV/AIDS eram mais jovens na primeira relação sexual quando comparadas às mulheres que não são soropositivos. Trinta e quatro por cento das mulheres vivendo com HIV/AIDS indicaram ter iniciado atividade sexual antes dos 16 anos contra 23,4% das mulheres que não vivem com HIV/AIDS.
'Quanto ao uso de preservativo, 32% das mulheres não vivendo com HIV/AIDS relataram que nunca usavam preservativos durante as relações sexuais, e 46,1% o usavam às vezes. Tais porcentagens foram significativamente maiores para as mulheres vivendo com HIV/AIDS. Nesse grupo, 62,2% nunca usavam preservativos, e 32,3% usavam às vezes. É importante ressaltar que, das mulheres vivendo com HIV/AIDS que referiram nunca ter usado preservativo até o momento da infecção, 68,4% tinham até a 4a série do Ensino Fundamental contra 48,4% entre mulheres não vivendo com HIV/AIDS com o mesmo grau de escolaridade. Além disso, o estudo detectou que 'as mulheres vivendo com HIV/AIDS relataram uma proporção significativamente maior na prática de uso de drogas injetáveis ou não, bem como de sexo em troca de dinheiro e/ou drogas quando comparadas com mulheres não vivendo com HIV/AIDS'.
O artigo alerta que existem poucos estudos que analisam comparativamente o perfil de mulheres vivendo com HIV/AIDS com o de mulheres da população em geral. Na literatura pesquisada, também não foram encontrados estudos que tenham considerado o contexto em que ocorreu a infecção pelo HIV. Os resultados desta pesquisa advertem que 'a alta proporção de mulheres infectadas pelos seus parceiros fixos e o uso inconsistente de preservativos pelas mulheres vivendo com HIV/AIDS sugerem não apenas uma possível baixa percepção de risco, como também impossibilidade de negociar de modo efetivo o uso do preservativo. A estruturação das relações de gênero pela dominação e desqualificação das mulheres propicia e naturaliza as desigualdades de poder nas relações afetivas, conjugais e/ou intimas, dificultando a abordagem de questões relativas à sexualidade, fidelidade e proteção. De igual modo naturalizam a violência, sobretudo a sexual, contra as mulheres, cujos corpos passam a ser tomados como objetos do desejo masculino'.
Fonte: ENSP, publicada em 14/10/2009