
ENSP, publicada em 25/11/2008
O governo brasileiro,
por meio do Ministério da Saúde, realizou, de terça a quinta-feira
(18 a 20 deste mês), a primeira edição das conferências
brasileira e internacional de Monitoramento dos Objetivos de Desenvolvimento
do Milênio do
Setor Saúde. Foi uma ação inédita no mundo, que
reuniu representantes de países da América Latina, África
e Europa, nove organismos internacionais do sistema das Nações
Unidas, além de organizações não-governamentais
e conselhos de profissionais para tratar exclusivamente do setor saúde
e as suas diferentes interfaces com as metas do milênio.
Em relação aos temas específicos - redução da mortalidade de crianças, melhoria
da saúde materna e combate ao HIV/AIDS, à malária e a outras doenças -, os participantes estabeleceram um pacto para lutar por mais recursos, de modo que a crise econômica global não comprometa as ações realizadas para o alcance das metas do milênio.
Em entrevista à Agência Saúde, o diretor do Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas do Ministério da Saúde e coordenador das conferências, Adson França, fala dos resultados dos três dias de trabalho, que trouxe a Brasília (DF) cerca de 300 pessoas. Diante do sucesso e da metodologia democrática que orientou todos os debates, os participantes elegeram o Brasil para sediar a segunda edição da conferência, em 2010.
Agência Saúde - Qual é a avaliação do senhor dos resultados das duas conferências?
Adson França - É a primeira vez que um país resolve fazer uma conferência internacional, unificando os três objetivos do setor saúde: o 4, o 5 e o 6. Normalmente as conferências trabalham o 4 e o 5 que são a redução da mortalidade na infância e a melhoria da saúde materna e outras conferências trabalham o 6, que trata do combate ao HIV, AIDS, malária, tuberculose e hanseníase. Essa conferência debateu educação, qualificação de profissionais, avanços nas questões de gênero, a importância das mudanças climáticas que podem interferir no setor saúde e a pobreza. É preciso qualificar e pensar na melhor utilização dos recursos e na ampliação do investimento público no setor saúde. Uma conferência de 17 países da Europa, América Latina e África. Uma conferência com mais de 60 gestores estaduais e municipais que trabalham com a saúde da mulher, da criança e do adolescente, HIV e AIDS. Uma conferência com 50 representações da sociedade civil organizada, com oito sociedades de especialidades médicas, oito conselhos de direitos da pessoa e com nove organismos internacionais que têm relação com o setor saúde.
Agência Saúde
- O que o senhor destaca como principal decisão desses encontros?
Adson França - As conferências resultaram em uma Carta de Brasília,
reafirmando a importância do financiamento no setor saúde, a importância
de estratégias e de decisão política por parte dos governos,
a necessidade de qualificação da força de trabalho, de
diálogo, de parcerias e de pactuações entre os gestores
federais, estaduais e municipais e a sociedade civil. Os países admitiram
que o Brasil tem experiências valorosas, que eles querem conhecer melhor.
E, mais do que isso, tivemos, nos encontros, a presença de muitas pessoas
que não participam do Conselho Nacional de Saúde; isso faz com
que os governos ajustem suas políticas. Durante as conferências,
fizemos um pacto de lutar por mais recursos para a saúde. Os países
também firmaram um pacto de que a crise iniciada em Wall Street não
deve penalizar as políticas públicas nos países que estavam
presentes nas discussões. Não é justo que a crise de lá
[Estados Unidos] provoque a redução de recursos para implementação
de políticas públicas vinculadas aos objetivos do desenvolvimento
do milênio.
Agência Saúde - Para a sua área específica de planejamento e estratégias, quais os principais desafios depois dessas conferências?
Adson França - O principal desafio é a qualificação da força de trabalho, de profissionais do SUS e também da própria saúde suplementar. É qualificar profissionais na evidência científica de primeira linha e no contexto das diferenças regionais, culturais e étnicas que existem no nosso país. Para reduzir a mortalidade materna, por exemplo, não é preciso só decisão política, mas também profissionais qualificados para o atendimento das urgências obstétricas. A mortalidade de recém-nascidos também. Se vamos comemorar a queda da mortalidade infantil em 2011, dentro dos Objetivos do Milênio, na faixa da infância de até cinco anos de idade, o componente de mortalidade entre os recém-nascidos é o que menos cai. Isso tem haver com o parto, com a necessidade de qualificar profissionais para enfrentar urgências no parto. Na AIDS, é preciso ampliar o diagnóstico e o acolhimento humanizado. Em todos os desafios, a qualificação de profissionais é fundamental.
Agência Saúde
- A segunda edição da conferência de monitoramento dos Objetivos
de Desenvolvimento do Milênio poderá ocorrer no Brasil, como sugeriram
os participantes do encontro?
Adson França - Não temos dúvida de que sim. A plenária
propôs para a mesa que o Brasil precisa fazer a segunda conferência.
Nós vamos levar, ao ministro Temporão [ministro José Gomes
Temporão, da Saúde], essa reivindicação, de que,
daqui a dois anos, o Brasil repita e faça a segunda edição
das conferências brasileira e internacional de Monitoramento dos Objetivos
de Desenvolvimento do Milênio do Setor Saúde. Também foi
aprovada moção de apoio ao esforço do Ministério
da Saúde e do Itamaraty e o cumprimento à qualidade dos debates.
É a primeira conferência em que todos os países convidados
têm direito à voz.
Fonte: Ministério da Saúde